domingo, 11 de dezembro de 2011

Apresentação do conto

Este conto narra as explicações da Vó Zuza sobre os motivos pelos quais comprou as imagens de São Miguel, São Gabriel e São Rafael para colocar no seu presépio. Ela inventa a narração do Natal, segundo a ótica dos três arcanjos.
Embora a vó Zuza conheça as Sagradas Escrituras e as utilize para aguçar a sua imaginação, as estórias dela não passam de fantasia. Mas, sem dúvida, podem nos ajudar a preparar o Natal.

Dedicatória

Ao Pe Manuel Correa, por suas "consultorias". 

Como ler o blog com o conto Natal segundo os anjos

Este conto pode ser lido por capítulos, indicados pelos “CAPÍTULOS DO CONTO”, no canto superior esquerdo:


Ou se pode ser lido em nove dias, indicados pelos dias da "NOVENA DE NATAL VIRTUAL":
Ou por páginas, publicadas no mês de dezembro:

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sábado, 10 de dezembro de 2011

1.0 - Compra das imagens dos três arcanjos para o presépio

Sempre que se aproximava o Natal, minha vó Zuza me convidava para ir com ela a uma loja de artigos religiosos, onde costumava comprar alguma imagem para seu presépio.
Certa vez, logo que entrou na loja, dirigiu-se à estante com diversas estatuetas de anjos e santos em vez de ir à estante com as figuras do presépio. Logo foi pegando uma imagem de um anjo que lutava contra um dragão, outra de um anjo que tinha na mão um lírio e também a de um terceiro anjo que levava na mão direita um peixe. Logo percebi o equívoco, provavelmente devido à vista fraca de minha avó, e lhe disse:
- Vó Zuza, por que a senhora pegou as imagens dos arcanjos São Miguel, São Gabriel e São Rafael? A senhora não vinha comprar imagens de anjos para o seu presépio?
Ao perceber o seu erro, mas sem perder a sua pose e o seu costume de inventar “causos”, a vó Zuza me respondeu:
- Miro, eram exatamente essas figuras que procurava!
- Mas, vó Zuza, esses arcanjos não têm nada a ver com o Natal!!
- Como não, Miro?! Têm tudo a ver!! Foram esses três arcanjos que conversaram com os pastores de Belém na noite de Natal.
- Vó Zuza, dessa estória nunca ouvi falar!
- Miro, pois então te conto.
E, como era já habitual, começou a inventar mais uma das suas longas estórias:
Havia três pastores nos arredores de Belém na noite de Natal: Simão, Saul e João. Cada pastor acabara de trazer a sua grei de ovelhas e de colocá-la dentro do aprisco. Naquela noite, João seria o porteiro, isto é, passaria a noite de guarda, vigiando todas as ovelhas para que os outros dois pastores pudessem dormir.
Mas, antes que Simão e Saul fossem se acostar, as ovelhas começaram a ficar muito agitadas e a soltar balidos, com gemidos cada vez mais estridentes.
João comentou:
- Algum lobo deve estar se aproximando.
Os pastores se colocaram de sobreaviso. Mas não viram lobo algum. De repente, uma luz muito intensa começou a brilhar em cima da mureta de pedras do aprisco e as ovelhas saíram em disparada para o outro lado. A luz foi aproximando-se e acabou envolvendo os pastores, que ficaram apavorados, pois nunca tinham visto tal fenômeno.
E, no meio da luz, viram um anjo que se dirigiu a eles dizendo:
- Não tenham medo, eis que lhes anuncio uma boa notícia para a alegria de todo o povo: hoje nasceu, na cidade do rei Davi, o Salvador...
E, subitamente, apareceu uma multidão de anjos que cantava, louvando a Deus:
- Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade.
O anjo, que anteriormente se apresentara sozinho, acrescentou:
- Vocês serão os primeiros homens, depois de seus pais na terra, a ver o Messias. E reconhecê-lo-ão quando acharem um recém-nascido envolto em faixas e posto numa manjedoura.
Nesse ponto, interrompi a vó Zuza, até mesmo para provocá-la.
- Até aí, eu conheço bem a estória. A senhora não me está contando nenhuma novidade!!
- Mas o que vem agora tenho certeza que você não sabe, respondeu-me a vó Zuza.
Os pastores contestaram:
- Por favor, dê-nos mais alguma pista. Qual é a direção que devemos tomar? Há muitas manjedouras espalhadas pela região de Belém!! E, por favor, fale-nos mais sobre esse recém-nascido que iremos encontrar. Do que Ele nos vem salvar? Quem são os seus pais? Por que nós devemos procurá-lo em plena noite?
            O Anjo lhes disse:
- Bem, para responder a essas perguntas, penso que os três arcanjos são os mais indicados, pois eu não passo de um simples anjo: São Miguel, mais do que ninguém, poderá explicar-lhes por que o recém-nascido é o Salvador; São Gabriel poderá falar-lhes sobre os pais do menino e São Rafael poderá conduzi-los até a manjedoura e explicar-lhes os contratempos que os pais dele tiveram na viagem de Nazaré a Belém e por que vocês também devem ir para lá.
Os três arcanjos ficaram com os pastores para responder as suas perguntas, enquanto o resto da multidão de anjos já se dirigiu para a gruta de Belém para visitar o Menino recém-nascido.
“Xii”, pensei... “Esta estória vai longe...”
E para evitar que a vó Zuza se prolongasse demais, disse-lhe:
- Vó, a loja já está para ser fechada. Por que a senhora não conta, agora, o que disse apenas um dos arcanjos sobre o Natal? E deixamos os outros dois arcanjos para outro dia.
- Boa ideia, Miro.

1.1 - A batalha de São Miguel contra o Dragão

- Então, hoje começarei com o que São Miguel disse aos pastores. Primeiro, São Miguel, por ser muito educado, se apresentou:
- Meu nome é Miguel, que significa “Quem como Deus?”, pois este é o meu grito de guerra, com que convoco todos os anjos do Senhor a lutarem contra aqueles que se negam a reconhecer a realeza de Deus e a servir-lhe.
O pastor Simão, bastante assustado, disse em nome de todos os pastores:
- Mas não sabíamos que havia uma guerra contra Deus!! Onde ela está ocorrendo?!
- Agora mesmo está ocorrendo na Terra, por toda parte.
Os pastores se entreolhavam confusos e assustados, sem dizer palavra alguma.
            Miguel continuou:
- Mas essa guerra se iniciou no céu, logo após a criação do mundo.
Inesperadamente, apareceu no céu um grande dragão vermelho, com sete cabeças, coroadas com sete diademas, e dez chifres, personificação da maldade de um anjo muito poderoso que, por orgulho, revoltou-se contra Deus e iniciou uma rebelião entre os anjos. Soltava fogo pelas sete bocas, cheirava a enxofre e com a sua cauda varria a terça parte das estrelas do céu.
O pastor João exclamou:
- Uau! Um dragão com sete cabeças! Mas por que tantas cabeças?
            São Miguel explicou:
- Intuo que seja pelos sete pecados capitais com que Satanás ataca muitas pessoas: a soberba, a avareza, a luxúria, a ira, a gula, a inveja e a preguiça.
            O pastor Saul, o mais curioso de todos, interveio:
                        - E que estrelas são essas, varridas dos céus?
            São Miguel respondeu:
- As estrelas que caem do céu são aquelas pessoas que, tendo perdido a esperança nas realidades celestiais, cobiçam apenas a glória terrena, influenciadas por Satanás.
Embora Saul não tenha compreendido bem a explicação, ficou pensativo. Enquanto isso, São Miguel continuou a história:
- O Dragão tinha como brado de guerra: “Não servirei a Deus!” Esse terrível urro foi espalhando-se pelo céu até ser proclamado por uma grande quantidade de anjos, que ao soltarem também esse berro horrendo tornavam-se maus, transformando-se em verdadeiras serpentes. O Dragão e os seus demônios negavam o poder absoluto do Deus verdadeiro e se proclamavam, insolentemente, deuses da sua própria existência. Esse é o maior de todos os pecados capitais e o primeiro cometido por Satanás: a soberba.
Neste momento o zelo de Deus, tomou o meu espírito e, empunhando uma poderosa espada capaz de dilacerar os espíritos, dada a mim pessoalmente pelo Altíssimo, lancei o meu brado de guerra “Quem como Deus?”, que deixava claro que nada nem ninguém pode ousar ocupar o lugar do Deus Altíssimo. Ao som desse clamor, a grande maioria dos anjos, fiéis a Deus, proclamaram-no comigo. E iniciou-se a mais terrível batalha que já houve no céu. Tivemos que combater o grande Dragão e seus anjos. Depois de uma longa guerra, prevalecemos contra as forças do mal e os expulsamos do céu. O grande Dragão e seus anjos foram precipitados na terra.

1.2 O pecado original dos homens e suas consequências

O pastor João ouvia a narração do combate com verdadeira paixão, torcendo pelos anjos bons. E, ao ouvir o final da história, exclamou:
            - Então, nós os vencemos!
Miguel respondeu:
- Nós, os anjos bons, os vencemos no céu!
E, olhando para cima, disse:
- Por isso alegrai-vos, ó céus, e todos que aí habitais.
E, voltando para os pastores, alertou-os:
- Mas, ó terra e mar, cuidado! Porque Satanás desceu para vós, cheio de grande ira, sabendo que pouco tempo lhe resta.
Os três pastores encheram-se de medo. E, defendendo-se, Saul disse:
- Mas o que nós humanos temos que ver com essa Guerra dos céus? Estávamos quietinhos aqui embaixo, no bem bom.
São Miguel lhes contestou:
- É verdade! O primeiro casal humano vivia no paraíso terrestre, até que Satanás se apresentou à primeira mulher, Eva, na aparência de uma serpente.
O pastor Simão exclamou espontaneamente:
- Só podia ser uma serpente. Não gosto desse bicho traiçoeiro. Já viram como esse animal rasteja pela terra sem fazer barulho e se aproxima de mansinho para dar o bote em sua vítima, inoculando o seu veneno letal?
            São Miguel respondeu:
- É assim mesmo que Satanás atua. Chega de mansinho para enganar as pessoas. E ludibriou Eva e seu marido Adão dizendo que, se comessem do fruto da árvore proibida por Deus, eles não morreriam como Deus havia alertado, mas, ao contrário, seus olhos se abririam e eles seriam como deuses, conhecedores do bem e do mal.
Saul disse:
- Desta história já ouvi na leitura do livro do Gênesis, um dia desses na Sinagoga.
            São Miguel respondeu:
- E se lembra do que aconteceu depois disso?!
- Eles não foram expulsos do Paraíso?!
- Exatamente. As consequências foram desastrosas para todos os homens. Perderam vários dons que Deus os havia dado desde a sua criação. A partir daquele instante, os humanos passaram a perder muitas vezes o controle das suas paixões, a sentir dor e cansaço e até mesmo a morrer. E foram excluídos da presença de Deus, perdendo a herança da felicidade eterna junto de Deus nos céus. A ponte que unia o céu e a terra foi destruída pelo próprio homem.
O mal penetrou no coração dos homens e a maldade entrou no mundo deles.
O pastor Simão respondeu:
- Bem que eu sabia que havia alguma coisa errada conosco! Que nós estávamos desajustados e tantãs!

1.3 - A Mulher que pisa a cabeça da Serpente

São Miguel disse:
- Mas fiquem tranquilos, porque o mal nunca vencerá o bem, nesse mundo de Deus.
            Simão retrucou:
- Será?
São Miguel respondeu energicamente:
- Claro que sim! Vocês não se lembram das promessas do nascimento do Messias no mesmo livro do Gênesis?
            Envergonhado por não se lembrar, Saul, aquele pastor que mais conhecia as Sagradas Escrituras, respondeu em nome dos demais:
                        - Não, não nos lembramos dessa passagem.
- Então o Senhor Deus disse à serpente: “Porque fizeste isso, serás maldita entre todos os animais e feras dos campos; andarás de rastos sobre o teu ventre e comerás o pó todos os dias de tua vida. Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a dela. Esta te esmagará a cabeça, e tu apenas lhe ferirás o calcanhar”.
            Saul o interrompeu de novo: 
- Mas quem é essa misteriosa mulher?
            São Miguel, totalmente admirado, respondeu:
- É a mulher que se veste com o sol, que tem a lua debaixo dos seus pés e na cabeça uma coroa de doze estrelas. É a mãe do Messias, do Salvador. Aquela que tem o poder de esmagar a cabeça do Dragão, ou da antiga serpente. Ela é a Imaculada Conceição, aquela que nunca pactuará com o mal na sua vida. É a criatura mais bela e poderosa que há, embora fisicamente tenha uma aparência frágil e delicada.
Interrompi a vó Zuza para perguntar-lhe:
- Vó Zuza, sem querer contradizê-la, mas na Missa, certa vez, o Monsenhor Bianchini disse que essa mulher representava a Igreja.
- Miro, às vezes, as figuras da Bíblia representam, ao mesmo tempo, mais de uma realidade. Você queria que São Miguel falasse da Igreja, quando Jesus, que iria fundá-la, tinha acabado de nascer? Francamente, tenha paciência! E como São Miguel bem disse essa Mulher também representa a Mãe do Salvador. E tem mais: quando Maria foi concebida se armou aquele alvoroço...
            - Como assim vó Zuza?!
- Como São Miguel explicou aos pastores:
- No dia da Imaculada Conceição de Maria, os anjos bons fizeram uma imensa festa no céu, como jamais havia ocorrido, para comemorar o início da vida da criatura que mais dava glória ao Altíssimo no mundo. Maria era a grande obra-prima de Deus e nós, os anjos bons, alegramo-nos muitíssimo com isso. Maria também era a Aurora da Salvação, pois dela nasceria o Salvador, que tiraria o pecado do mundo e triunfaria definitivamente sobre as forças do mal.
Mas os demônios se revoltaram ainda mais contra Deus. Ficaram humilhadíssimos ao verem uma criatura humana mais perfeita e poderosa do que eles. E, ao intuírem que ela provavelmente seria a Mulher profetizada que esmagaria a cabeça do Dragão, sentiram-se encurralados e ficaram mais raivosos ainda.